Rio desborde

Realização
Vivian Castro
Textos
Vivian Castro, Catalina Infante
Produção, câmera, roteiro, montagem
Vivian Castro
Câmera Barragem da Penha
Lucas Eskinazi
Música Original
Sebastián Vergara
Pós produção Loudness Films
Com o apoio de
ECA-USP
CNPq

https://www.visionsdureel.ch/2020/media-film/river-overflow

http://www.festivaldecurtasbh.com.br/filmes/rio-desborde/

Texto Mostra Paralela “A Vida das Coisas” 22º FestCurtasBH

Reconhecer a vida nas coisas
por Fabio Rodrigues Filho e Felipe Carnevalli

“Seria a árvore um objeto?”, pergunta-se o antropólogo Tim Ingold (2012) ao questionar o ímpeto funcionalista da sociedade ocidental de tudo transformar em recurso a ser explorado. Para uma pequena, mas sem dúvida destrutiva, parcela da humanidade — essa que caracteriza o “antropos” da atual e catastrófica era geológica conhecida como Antropoceno —, o mundo existe para servir: águas, minerais, peixes, plantas, tudo é objeto inanimado dentro do equivocado sonho moderno dos recursos infinitos. Em nossa mesquinha pretensão de criar desertos onde pulsa a vida, esquecemo-nos de que, assim como nós, pedras também escutam, rios também falam, vírus também ditam tendências. Hoje — na obrigação de nos haver com pandemias, catástrofes climáticas e desigualdades de várias ordens —, sabemos os perigos da ideia de soberania do homem sobre a natureza, ou sobre as coisas do mundo. Como indaga Ingold em sua crítica à nossa assombrosa capacidade de inanimar as coisas para transformá-las em objetos, é preciso lembrar que “coisa” é um agregado de fios vitais, “um lugar onde vários aconteceres se entrelaçam” (INGOLD, 2012). Nesse exercício diminuto de reconhecer a vida nas coisas, o emaranhado de filmes apresentado aqui evidencia como o cinema é capaz de revelar as agências do fora, de um extracampo da modernidade que hoje, mais do que nunca, sabemos estar no centro das discussões. São seres, vidas e sistemas outros que rompem a invisibilidade para reaparecer nas imagens com suas inúmeras estratégias de persistência.

Por entre ruínas

Em sua ruidosa e maquínica intervenção estética, El Dorado (Los Ingrávidos, 2020) pronuncia por um recado direto à insuficiência de um sistema de morte, expondo a exploração intrínseca ao capitalismo. O programa do curta articula texturas de desfigurações, travando nessa interrupção no domínio da visibilidade seu tecnomolecular confronto com o capital. Este embate segue em Inabitável (Loic Ronsse, 2020), em que os registros da paisagem de Brumadinho (MG), captados por um drone, são montados através da perspectiva de um ser extraterrestre que analisa as condições de vida ali. Se o título do filme adianta o diagnóstico da sondagem, a imagem, no entanto, expõe em absurdo os “objetos primitivos que se movem pela superfície”: caminhões de mineradoras que seguem em sua sanha cadavérica pelo lucro. Em Nouvelles de la Capitale d’Antimoine (Liu Guangli, 2019), a distopia de um ambiente explorado à exaustão também já habita o presente, mesmo que o negacionismo das imagens institucionais não cesse de tentar provar o contrário. Ao revelar a produção de um programa de TV local de Lengshuijiang, na China, o curta confronta o discurso publicitário que insiste em apagar um passado de exploração massiva da terra com cenas de uma atual paisagem miserável, na tentativa de testemunhar a memória ainda presente da destruição.

Memórias biológicas

“De onde emerge o que a memória elabora? Emerge do esquecimento”, aponta Vivian Castro ao mostrar como os rios urbanos e as pessoas afetadas por suas águas são constantes alvos de apagamento em um sistema avesso à presença da natureza. Em Rio Desborde (2019), a diretora tece relações entre os problemas ambientais ligados aos rios Tietê, em São Paulo, e Mapocho, em Santiago do Chile, a partir das memórias de inundação marcadas nas paredes das casas de quem habita suas margens. Cedo ou tarde, aquilo que a modernidade quis apagar transborda, emerge da invisibilidade para nos lembrar quão ilusória é a soberania do homem sobre as coisas. Numa outra mirada para a dialética entre o esquecimento e a elaboração memorialística, em Ex-Humanos (Mariana Porto, 2019) cápsulas de memórias alheias alimentam um ser laboratorial. Nessa distopia, um jovem interceptador revira lixos em busca de vestígios de memória, enquanto uma velha feiticeira produz as tais cápsulas, coletando pelo apagamento as memórias inscritas nas fotografias. Pouco a pouco, o conflito entre a dependência da memória e o desejo de ser mais caminha para um colapso irreversível. Baseado na canção xamânica de mesmo nome, Gujiga (Kim Sunjha, 2019) propõe uma ode às tartarugas, tomadas ao mesmo tempo como espécie em risco de extinção e como símbolo sagrado. A partir de uma atmosfera sensitiva que se inscreve na imagem por texturas e sons dos movimentos desses animais, o filme dá forma às ligações mitológicas entre humanos e não humanos, fazendo-nos interagir com os modos pelos quais esses entrelaçamentos se expressam.

Entranhas do mundo

Gesto similar é percebido no vertiginoso Labor of Love (Sylvia Schedelbauer, 2020), um exercício abstrato e feminista de interpretação sobre o amor — esse sentimento escorregadio —, para além da natureza humana, sempre em curso de renovação. Em um hibridismo entre a película e o digital, entre corpo e paisagem, o filme opera uma experiência alucinógena na qual a imagem é solicitada como algo que está ao mesmo tempo dentro de nós e dentro do mundo. O deslocamento sensorial também incide em Memby (Rafael Parrode, 2020), em que sombras, luzes e texturas interagem, nos fazendo mergulhar numa experiência onírica, de múltiplos devires, fluindo por camadas de existências. Do ultrassom ao movimento cromático dos corpos, da imagem microscópica à telescópica, formas de vidas e de seres se emaranham e jorram no curta. Por fim, no ritmo tempestuoso e estroboscópico de Pirámide Erosionada (Los Ingrávidos, 2019), coisas se movem, colidem e expõem-se enquanto vivas. Seja na fusão ou na colisão, um dos jogos deste filme é o contrastar, a exemplo da paisagem sonora jazzística, improvisada com uma multiplicidade de instrumentos — desde os propriamente musicais aos sons de ferramentas de trabalho. Essa experiência rítmica atonal radicaliza o que poderia ser visto como inanimado ou imóvel.

Repropondo arranjos para os nove filmes selecionados, os dois programas que compõem a mostra se enredam nos fios vitais que constituem as coisas do mundo. Em alguma medida, a própria mostra é também uma coisa, lugar de múltiplos aconteceres. Gestada na relação entre o conjunto de filmes inscritos nesta edição do festival — essa floresta de possibilidades existenciais —, A vida das coisas acolhe e reafirma a interligação do que poderíamos chamar de tendências que emergiram no conjunto: especulações distópicas, humanidades ampliadas, colapsos no/do capitalismo e interações microbiológicas. Abrigando vários procedimentos formais, a mostra, sendo coisa e recorte, surge em interação com tantos e diversos modos de existência.


Referências
INGOLD, Tim. Trazendo as coisas de volta à vida: emaranhados criativos num mundo de materiais. Horizontes Antropológicos, Porto Alegre, v. 18, n. 37, 25-44, jan./jun. 2012